sexta-feira, 25 de julho de 2008

A TV TUPI E O TV DE VANGUARDA

Tão logo deu início à sua programação, no início dos anos 50, a televisão Tupi passou a transmitir teleteatros com uma abordagem ambiciosa, realizando adaptações de clássicos da literatura universal, como Shakespeare, Górki, Arthur Miller e muitos, muitos outros. Esses teleteatros "pesados" eram exibidos um domingo sim, outro não, com o nome de TV de Vanguarda. Nos domingos intermitentes, optou-se pela produção de peças mais leves, sob o nome de TV de Comédia. Ainda assim, eram produções difíceis de serem realizadas.

Para se ter uma idéia, era como montar uma peça de teatro por semana - e não qualquer peça. Os atores tinham que decorar grandes falas e a produção ainda incipiente do início da televisão, precisava terminar cenários em tempo recorde. Mas tudo era feito num clima de grande entusiasmo, com a consciência de todos de participar de um momento especial. Havia grandes atores e atrizes, como Laura Cardoso, Fernando Balleroni, Lima Duarte, Lia de Aguiar, Jayme Barcellos, isso só para citar alguns de passagem. Walter George Durst era o intelectual daquele grupo e responsável por muitas das adaptações e direções.

O que talvez facilitasse um pouco as coisas - no sentido de agilizar as produções -, é que aqueles pioneiros, em sua grande maioria, moravam no Sumaré, o bairro onde se erguia o prédio e os estúdios das Associadas e da TV Tupi. Esse fenômeno já havia principiado na época do rádio, e com o surgimento da televisão aumentou consideravelmente o número de atores, atrizes, técnicos, músicos e diretores que migraram para aquele bairro montanhoso, procurando alugar algum imóvel nas imediações da emissora.

Isso transformou o bairro do Sumaré, no início dos anos 50, numa espécie de comunidade artística. Os artistas estavam iniciando suas carreiras e suas vidas familiares ao mesmo tempo. Os filhos deles iam crescendo em meio àquela atividade febril. Os salários modestos do início da televisão precisavam ser administrados com algum rigor e muitos se juntavam para dividir apartamentos em Santos, na época das férias das crianças. A grande vantagem é que a maioria morava a duas quadras do local de trabalho e podiam tranqüilamente fazer o trajeto à pé, ou subir as íngremes ladeiras do bairro com o auxílio de um ancestral skoda, um carrinho da era pré-fusca. Enfim, a TV Tupi galvanizava todo o bairro e não era incomum alguém deparar com uma atriz que havia se descabelado como alguma Lady Macbeth no domingo, comprando peixe na feira que atravessava a Rua Bruxelas às quartas-feiras.

Dionisio Azevedo foi uma das principais figuras daquele momento. Com seu temperamento entusiasmado, entregou-se totalmente ao trabalho, atuando como ator, roteirista-adaptador e diretor de muitos teleteatros da época. Toda a vontade de fazer cinema foi canalizada de alguma forma para aquela atividade, que era um combinado de diversas linguagens: possuía os recursos da câmera, mas as apresentações eram transmitidas em tempo real, como no teatro.

Por conta disso existe um extenso anedotário de coisas que davam errado, como cenários que não entravam, armas letais que negavam fogo no momento crucial, atores que grudavam o texto pelos cenários (essas colas eram chamadas "dálias") e algum cenotécnico desavisado retirava o adereço sem avisar, deixando o ator literalmente sem fala. Todos esses percalços precisavam ser superados com muita verve, senso de improviso e, obviamente, naturalidade. Dionisio contava sempre de uma vez que foi obrigado a contracenar com um jacaré de verdade. Trouxeram o mais velho que encontraram no zoológico, mas ao ver o rabo do bicho se agitar ele não conseguiu terminar devidamente a cena, abandonando o set e deixando o câmera-man perplexo ao enquadrar um cenário cujo único ator era precisamente o sonolento jacaré.

Mas esse lado picaresco e folclórico não deve de nenhum modo depreciar o quadro geral de uma época efervescente de entusiasmo criativo pelo veículo nascente e a seriedade com que os teleteatros eram criados. Havia uma consciência de responsabilidade cultural muito forte, no sentido de se apresentar textos da melhor qualidade, com o melhor nível possível de interpretação.

Neste sentido, um dos trabalhos mais marcantes de Dionisio Azevedo foi uma adaptação pioneira do conto de João Guimarães Rosa "A hora e a vez de Augusto Matraga". Com essa produção ambiciosa para aquele tempo, ele dava continuidade ao aprendizado feito com seu mestre Lima Barreto de pesquisar o homem brasileiro em seus vários aspectos e tentar traduzir essa complexidade em cinema ou teledramaturgia de qualidade. Fazendo a adaptação, a direção e atuando como ator, Dionisio produziu um dos momentos mais fortes do TV de Vanguarda.

Durante toda década de 1950, a realização de teleteatros na TV Tupi foi uma constante. Logo aquela fase pioneira estaria encerrada e Dionisio, que havia participado da primeira experiência com vídeo-tape, iria prosseguir seu trabalho na TV Excelsior. Mas a sua contribuição pessoal para aquele início da televisão foi extensa e marcante.

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